“Vandalismo é não falar de amor”, segundo G.L.

Giovanna Lima - G.L.

Giovanna Lima (G.L.) fala sobre o que a move a espalhar poesias pelas ruas de Curitiba, seu processo de inspiração para escrever e sobre sua visão de mundo.

Queremos trazer aqui um pouco mais de quem preenche as ruas das cidades com poesias, indagações e verdadeiras obras de arte. Essas pessoas ora nos fazem refletir, ora nos fazem sorrir, ora nos surpreendem.

Já mostramos no Instagram muita coisa boa que tem pelas ruas, mas, agora, queremos saber um pouco mais sobre quem é capaz de transformar a cidade e o nosso dia com a sua escrita.

A primeira pessoa com quem conversamos é a Giovanna Lima (G.L.) – ou Zizica – que já ilustrou alguns posts aqui do blog com os seus dizeres. E tenho que dizer: não é só a sua poesia que encanta, seu modo de pensar e sentir o mundo também.

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Ela é conhecida pelos muros de Curitiba como G.L. Em seu perfil no Instagram, Giovanna se auto intitula como “escritora não-remunerada“. Ela tem 28 anos, é jornalista e estudante de letras.


Um pouquinho do que ela já escreveu por aí:

  • “Quando o presente te encarar, sustenta o olhar.”
  • “Quase um ano de análise e ainda não consegui entender o que aconteceu comigo naquele segundo em que você sorriu.”
  • “Amar é misturar-se ao outro sem temer efeitos colaterais.”

Confira a entrevista:

Há quanto tempo você espalha poesia por Curitiba? Há quase três anos.

Aonde você busca inspiração para escrever? No meu dia a dia, nas conversas, nos bares, nos livros, nas pessoas, nas questões da minha existência que não consigo encontrar resposta.

Você pode nos contar qual é o “processo” de inspiração para escrever poesias? Tudo nasce a partir de uma ideia, de um pensamento. Se o pensamento está incomodando demais, tento colocar no papel e depois trabalhar em cima. Depois desse primeiro esboço, começo a pensar no melhor formato pra esse conteúdo, buscar rimas, imagens, jogos de palavras, lembranças. Passo um bom tempo nesse processo até conseguir ver algo que eu considere interessante, às vezes meses. Quando não estou muito segura, dou pra alguém olhar e avaliar antes de publicar em algum lugar.

A escrita é uma forma de libertação para você? Além de me libertar, a escrita me dá prazer e sentido pros meus dias.  A escrita é minha luta.

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 “A poesia é nobre demais para ficar longe da rua.” – Você escreveu essa frase. É isso que te move a agraciar a cidade com a sua escrita?

Não é só o que está na biblioteca, no museu ou na galeria que merece reconhecimento. Existe um outro lado – bonito, questionador, impactante  – que não está nesses espaços reservados para a arte.  Enxergar a rua como uma expressão me faz conhecer novos artistas a cada nova quadra. E mais: faz romper com esse cânone. Tá cheio de gente produzindo muita coisa boa, mas a academia continua valorizando o de sempre. Os professores continuam indicando os mesmos livros pra leitura. A parede não passa a ser valorizada ou desvalorizada depois de alguma expressão. Ela só é um suporte. Além de tudo isso, comprar um livro ainda é muito caro. Ir em uma exposição também. Algumas pessoas não têm condições pra isso. Na rua, é tudo de graça.


Tem alguma frase que escreveu pela qual você tem um carinho especial? Qual é?

Sozinha seria

se ainda estivesse

junto contigo

Essa poesia serviu como empoderamento pra mim – e sei, por causa do feedback, que também gerou 1identificação em outras minas.

Ao longo da vida, as mulheres passam por situações de violência, assédio, abuso e silenciamento muito parecidas. Tento mostrar, por meio de palavras, que elas não estão sozinhas e tento também incentivar a voz delas a reverberar. Conseguir trazer força e poder pras mulheres é um dos sentimentos mais maravilhosos que já senti.

Quem você admira como artista de rua? Por quê? No momento, estou completamente apaixonada pela Jenny Holzer. Os escritos dela são fantásticos, misturam poesia e simplicidade de um jeito único. Além disso, ela traz reflexões imediatas em formatos inusitados.

Quais são as suas maiores paixões? Literatura, cinema, bares, epifanias e trocas sinceras.

Qual é a poesia que você fez que mais repercutiu? Vandalismo é não falar de amor, deu o que falar. [Não à toa escolhemos para o título desse post.]

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Pode citar um livro que leu e gostou muito? Conta um pouquinho para gente por que gostou. Tenho um espaço  no coração reservado pro Bukowski, por uma primeira identificação. Ele me mostrou que a literatura podia ser simples, íntegra e nos dar razão pra viver quando nada mais funciona.

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E um filme? Trainspotting. Outro filme: Closer.

Veja a cena inicial do filme:

Como você escolhe o local onde vai deixar a sua poesia? Sempre que possível, tento encontrar um lugar que combine com as palavras, gosto dessa harmonia de local e conteúdo. Prefiro também espaços efêmeros e/ou abandonados.

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Você já tatuou no seu corpo alguma frase que escreveu? Não, e acho que nem tatuaria. Seria muito ególatra.

Deve ser muito bom receber mensagens das pessoas reconhecendo o seu trabalho… Como você se sente quando alguém se identifica com o que escreve? Recebo muito amor das pessoas. Retribuo com o mesmo amor. Me sinto bastante realizada com o retorno das pessoas, é algo que me move e me motiva.

Qual foi o maior reconhecimento que você já teve com a sua escrita? O texto do José Carlos Fernandes na Gazeta do Povo é o que me deixa mais orgulhosa. [Você pode conferir o texto clicando aqui.]

A maioria dos seus textos fala de amor… Você acha que falta amor no mundo? Acha que as pessoas precisam se amar mais?

Falta enxergar o outro como um ser humano como você, que tem sonhos, ambições, defeitos e esperanças. Um ser humano que também vive neste mundo e que faz diferença na vida de muitas pessoas. Falta amor por tudo que esse outro é e pelo quanto ele importa entre as pessoas que convive. É um ser humano como eu, que sofre, almeja, ri. E quando falta amor, vem junto a falta de respeito, a discriminação, a opressão e outras coisas ainda piores.

Qual é o seu maior sonho? Poder ver o mundo sendo um lugar mais justo.

Quer saber mais sobre ela?

Intitulado de “Vandalismo é não falar de amor“, esse documentário, dirigido pela Flávia Cassias, fala mais sobre o seu trabalho.

Confira:

 

Camila Cacau

Apaixonada por Marketing e Comunicação. Acredita nas pessoas, nas amizades e em um mundo mais colaborativo. Gosta das boas reuniões com a família e os amigos e de andar pelo mundo afora. Tem entre suas paixões compartilhar poesia de rua no @vozesdacidade e conhecer novas realidades e pessoas interessantes. Acredita que a realidade é o melhor lugar para sonhar!

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