“Sinal fechou? Lembra do cheiro dela”

sinal fechou cheiro

Por Juscelino Filho

Saiu de casa atrasado. Pegou mochila, crachá, carteira. Fechou com força a porta do carro antes de reparar que havia esquecido as chaves ao lado do mouse do computador. Teve que voltar para buscá-las e perdeu outros preciosos segundos antes de partir rumo ao castigo-assalariado-nosso-de-cada-dia. No percurso: o trânsito-nosso-de-cada-dia.

Não dormiu bem naquele início de segunda-feira. O final de semana fora agitado. Discutiu com Clara durante o passeio no parque. Mais uma vez, o ciúme apareceu no final de semana que deveria ser de paz, aconchego e serenidade. A briga foi feia. Ela realmente não gostava daquela ❝amiga do trabalho❞. Era assim mesmo, entre aspas imaginárias feitas com os dedos, que ela se referia à tal amiga.

João não gosta de brigas. Faz o possível para evitá-las. Mas tinha aprendido com Clara que num relacionamento não se vai dormir sem antes resolver o embate. Pela primeira vez em quatro anos, o confronto não foi resolvido. E nenhum dos dois, pelo visto, queria dar o braço a torcer. Pela primeira vez em quatro anos, sequer havia se despedido de Clara na saída para o trabalho.

O ar-condicionado do carro amenizava os 32°C que gritavam do lado de fora. Aerosmith cantarolava sucessos que abafavam as buzinas regurgitadas pelos outros veículos que insistiam em usá-las na vã tentativa de abrir caminho entre os carros, assim como Moisés fez com o cajado e o Mar Vermelho. Inutilmente. João, em devaneios dentro do Spider, o HB20 vermelho que comprara há poucos meses, só pensava em Clara.

Entre uma buzina e outra, passou a perceber a cidade. Aquele prédio novo ia dar um ótimo hospital. Design arrojado, quase futurista. Num poste logo na esquina da construção, um grafite: ❝Quer? Então queira de com força❞.

Quer? Então queira de com força.

Foto: Bruno Gomes/Agência Diário

O cruzamento seguinte era aquele demorado. Nunca havia contado o tempo, mas decerto aquele maldito sinal na avenida principal passava algo perto de uma eternidade fechado. Dava tempo de conferir as mensagens que chegavam nos grupos de trabalho. Desta vez, João viu outra mensagem. No poste, logo ao lado direito da via: ❝Sinal fechou? Lembra do cheiro dela❞.

Sinal fechou? Lembra do cheiro dela.

Foto: Bruno Gomes/Agência Diário

Ah, o cheiro da Clara. Leve, refrescante. Mas também era atrevido. Sensual sem fazer força. Dizem que associamos cheiros a lembranças. O perfume da Clara rememorava todas as viagens, passeios, noites passadas ali, lado a lado, durante os últimos quatro anos. Lembrava os sorrisos, os chamegos, os abraços. João percebeu que sequer sabia o nome da fragrância. Mas pouco importava. Era uma essência que ele não queria perder.

Na esquina da firma, a última mensagem no poste era até desnecessária, mas reforçava as demais: ❝Só me encontro dentro de ti❞.

Só me encontro dentro de ti.

Foto: Bruno Gomes/Agência Diário

João viu uma vaga dando sopa, fez a manobra, estacionou o carro, sacou o celular do bolso e escreveu o que deveria ter dito ainda na noite anterior.

– O amor maior do mundo existe por sua causa. E está comigo. Perdoa?

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